Conectados – A era da extinção da criatividade
Leo Chaves | Fotos Divulgação

Vivemos uma era paradoxal: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão desconectados de nós mesmos. O mundo oferece infinitas possibilidades de expressão, mas a maioria das vozes se repete. A criatividade, essa força vital que nasce do espanto e da curiosidade, parece ter se tornado uma espécie em extinção.
Os jovens de hoje, e nós também, adultos anestesiados pela rotina, estamos perdendo a capacidade de criar histórias próprias. Falta o exercício do pensamento criativo, aquele que se alimenta do tédio, da solidão, da observação atenta. Criar exige pausa, exige erro, exige profundidade. E profundidade não cabe em quinze segundos.
Tudo o que se deseja agora é
“viralizar”. É ser notado, ainda que superficialmente. Mas, ironicamente, esse desejo de visibilidade vem acompanhado de uma estranha covardia: a de não se expor de verdade.
As pessoas criam personagens, versões editadas e filtradas de si mesmas, enquanto o “eu” autêntico vai ficando escondido, como se a verdade fosse perigosa demais para caber em um post.
Nietzsche dizia que “a arte existe para que a verdade não nos destrua”.
E talvez seja justamente essa a função da criatividade: transformar a realidade bruta em beleza, em reflexão, em expressão. Mas como criar arte, ou qualquer forma de pensamento original, quando o olhar está sempre voltado para fora, para a tela, para o outro, para o julgamento?
A leitura me ensina o contrário. Quando estou perceptivo, treino a leitura. Leio para despertar, para exercitar a presença. Diferente dos vídeos curtos que apenas capturam a atenção, o livro devolve silêncio. Ele convida o leitor a pensar, a imaginar, a questionar. Cada página lida é um mergulho dentro de si, e é desse mergulho que nasce a verdadeira criatividade.
A leitura é o antídoto contra a superficialidade. Ela nos devolve repertório, vocabulário e alma. Porque quem lê aprende a olhar o mundo com outros olhos, e quem observa profundamente, cria.
E há também a escrita, companheira inseparável da leitura.
Escrever não é apenas expressar; é consolidar. Pesquisas mostram que o ato de escrever à mão fortalece a memória e a compreensão: ao engajar o sistema motor fino, a visão e os mecanismos sensoriais, cria-se uma ativação neural mais rica do que ao digitar. Um estudo publicado pelo periódico Frontiers in Psychology (2023) revelou que a conectividade cerebral é mais ampla durante a escrita manual do que na digitação. A escrita exige ritmo, relação íntima com as ideias, fortalecendo significativamente os processos de memorização e compreensão.
Assim, leitura e escrita se tornam dois gestos essenciais no cultivo da criatividade: um para absorver o mundo, outro para transformá-lo.
Talvez a solução não esteja em criar mais conteúdo, mas em criar mais sentido. Em um mundo que premia o instantâneo, a criatividade será o último refúgio dos que ainda ousam pensar. Que possamos aprender a silenciar o ruído das redes, recuperar o prazer da frase lenta, redescobrir a memória do gesto, visualizar aquilo que não se vê no medidor de curtidas. E, quem sabe, reencontrar nosso eu, o único que verdadeiramente vale a pena expor.
Leo Chaves é cantor, escritor, palestrante e empresário.
@leochaves

