Uma cidade não fracassa sozinha. Ela fracassa quando escolhe mal seus representantes

Helio Mendes | Foto: Divulgação

Quando uma cidade funciona mal, a explicação mais comum é sempre a mesma: culpa-se o prefeito, a administração pública ou algum problema estrutural do Estado. Mas raramente se faz a pergunta mais incômoda: quem escolheu esses governantes? A verdade é simples e, ao mesmo tempo, desconfortável: cidades não fracassam apenas por má gestão. Elas fracassam quando seus cidadãos deixam de escolher bons representantes ou deixam de acompanhar a vida pública com atenção.

A política nacional costuma dominar o debate público. Brasília ocupa as manchetes, polariza opiniões e alimenta discussões ideológicas. Entretanto, a vida concreta da população acontece muito mais perto. Ela acontece nas cidades. É no município que se mede a qualidade da gestão pública: na escola que funciona ou não funciona, na unidade de saúde que atende ou deixa de atender, na rua pavimentada, na iluminação pública, na segurança e na organização urbana.

Estados e governo federal têm papel importante na formulação de políticas amplas e no financiamento de grandes projetos. Mas é no nível municipal que a política se transforma em realidade. No Brasil, essa engrenagem federativa apresenta distorções conhecidas. Municípios geram riqueza, sustentam boa parte da atividade econômica e contribuem de forma significativa para a arrecadação nacional. Porém, grande parte desses recursos é centralizada e retorna de maneira limitada ou burocrática. O resultado é um sistema frequentemente pesado, caro e pouco eficiente.

Nesse cenário, a qualidade da representação política torna-se decisiva. Uma parte considerável da atuação parlamentar tem se concentrado na busca por emendas orçamentárias. Elas têm sua utilidade, mas reduzir o papel de deputados e senadores à distribuição de verbas é empobrecer a própria função legislativa.

O país precisa de representantes capazes de propor reformas, aprimorar instituições e melhorar o funcionamento do Estado. Isso exige preparo técnico, independência política e coragem qualidades raras em ambientes dominados pelo curto prazo eleitoral.

Essa reflexão se torna ainda mais importante quando observamos cidades que crescem rapidamente, como Uberlândia.

O município se consolidou como um dos pólos econômicos mais relevantes do interior brasileiro. Cresce acima da média nacional, atrai investimentos e exerce influência regional. Mas crescimento também aumenta responsabilidades.

Uma cidade que se desenvolve precisa de gestores cada vez mais preparados e de uma população cada vez mais consciente do seu papel cívico.

Ao prefeito cabe conduzir o município com planejamento, disciplina administrativa e compromisso com aquilo que foi prometido à população. Governar não é apenas administrar demandas imediatas; é preparar o futuro da cidade.

Ao cidadão cabe acompanhar, questionar e participar da vida pública com responsabilidade. Hoje, as redes sociais criaram um espaço de fiscalização e diálogo político.

Nunca foi tão fácil falar diretamente com autoridades públicas. No entanto, essa nova realidade também exige maturidade. Críticas fundamentadas fortalecem a democracia; ataques irresponsáveis e desinformação apenas fragilizam o ambiente público e prejudicam a própria cidade.

É importante lembrar algo essencial: a cidade pertence a todos. Pertence ao empresário que gera empregos, ao trabalhador que sustenta sua família com esforço diário e àquele que, muitas vezes invisível, recolhe materiais recicláveis nas ruas para sobreviver.

O espaço urbano é uma construção coletiva. Nesse processo democrático, os vereadores desempenham um papel fundamental. São uma das principais pontes entre o cidadão e o Poder Executivo municipal. Cabe a eles levar demandas legítimas da população à administração, mas também exercer fiscalização responsável sobre o governo local.

Fiscalizar não é fazer espetáculo político. Fiscalizar é melhorar a gestão pública. Esse papel exige preparo, maturidade institucional e compromisso com o interesse coletivo.

Outro elemento frequentemente ignorado no debate público é o papel dos secretários municipais. Embora ocupem cargos temporários, são responsáveis por grande parte da execução das políticas públicas.

Gestores eficientes adotam práticas modernas de administração, priorizam transparência e buscam resultados concretos. Uma gestão pública de qualidade exige disciplina administrativa, liderança e exemplo. O comportamento do gestor influencia toda a estrutura da administração.

O calendário eleitoral reforça a urgência dessas reflexões. Em breve, os eleitores escolherão deputados, senadores e governadores. Aos candidatos que buscam a reeleição cabe uma avaliação simples: trabalharam de fato pelo estado e pelo país ou limitaram sua atuação à distribuição de emendas acompanhadas de marketing político?

A função de um parlamentar vai muito além da destinação de recursos para municípios. Ela envolve legislar com qualidade, fiscalizar governos e contribuir para a construção de instituições sólidas.

Ao avaliar novos candidatos, o eleitor também precisa ir além da simpatia pessoal, da amizade ou da proximidade geográfica. Representar a sociedade exige preparo, visão pública e responsabilidade.

Democracias não se sustentam apenas por leis e instituições. Elas dependem de dois pilares fundamentais: representantes qualificados e cidadãos atentos. Quando esses dois elementos falham, a gestão pública se deteriora.

Quando funcionam bem, a cidade avança. Uberlândia, como cidade polo regional e centro econômico em expansão, tem diante de si uma responsabilidade ainda maior.

Seu crescimento exige liderança pública qualificada e uma sociedade consciente de seu papel. No fim, o destino das cidades não é definido apenas por quem governa.

Ele é definido por quem escolhe governar.

Hélio Mendes- Palestrante, consultor empresarial e político. Autor de Planejamento Estratégico Reverso e Gestão Reversa. Curso de conselheiro pelo IBGC e ex-Secretário de Planejamento e Meio Ambiente de Uberlândia (MG).

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