Empreender, inspirar e transformar – A jornada de Ricardo Rocha

Ricardo Rocha é o tipo de empresário que não se contenta em seguir um único caminho. Fundador da Softbox, uma das maiores plataformas de tecnologia do varejo, vendida ao Magazine Luiza, ele rapidamente se reinventou, investindo em diversos setores, desde tecnologia até alimentação, com a criação de sete startups. Mas sua atuação vai além do mundo dos negócios. Ricardo também é sócio-fundador do Instituto Projeto de Vida, ONG voltada à educação e formação de jovens para o mercado de trabalho, mostrando sua forte crença na responsabilidade social e no impacto positivo que o empreendedorismo pode ter na sociedade.

Eleito um dos 10 palestrantes mais influentes do país em 2021, Ricardo continua a inspirar novas gerações de empreendedores e líderes com suas palestras e mentorias. Conhecido por seu estilo de liderança focado em pessoas e por valorizar o equilíbrio entre vida profissional e familiar, ele tem um olhar voltado para o futuro, investindo em projetos inovadores e defendendo a importância da transformação digital no Brasil. Nesta entrevista exclusiva para a Hub Club, Ricardo Rocha compartilha suas visões sobre empreendedorismo, inovação, liderança e o papel social das empresas, além de dar uma perspectiva única sobre como concilia seus muitos papéis – empresário, mentor, palestrante e defensor de causas sociais.

HUB Club: Durante sua gestão na Softbox, especialmente após a aquisição pelo Magazine Luiza, você esteve à frente de iniciativas significativas de transformação digital no varejo, como o projeto Parceiro Magalu. Pode compartilhar como essas experiências influenciaram sua visão sobre o futuro do comércio e a importância da digitalização para as empresas?

Ricardo Rocha: O varejista de pequeno porte, que era o foco da plataforma parceiro Magalu, tem muita dificuldade de trabalhar a visão do digital, mas isso muito mais porque as plataformas são construídas para empresas que são mais maduras e já trabalham uma gestão de estoque, processo de separação, que já tem uma certa formalização dos processos. Então, elas acabam obrigando o pequeno varejista a se comportar dentro dos conceitos que a plataforma exige e ele não está pronto para isso. A dificuldade é uma questão da usabilidade e da realidade desse pequeno empreendedor e isso fez com que eu, a partir de visitas, incursões, conversas presencialmente nesses varejistas, entendesse quais eram seus desafios. Assim, construímos uma plataforma que atendesse à essa realidade. Por isso que o Magalu tem duas ferramentas: o Marketplace, para empresas de médio e grande porte, e o programa parceiro Magalu, para o micro e pequeno empreendedor. Cada uma delas tem um modelo funcional adequado à realidade desses empreendedores.

Após vender a Softbox para o Magazine Luiza, você fundou sete startups em diversos setores, como tecnologia, serviços e alimentação. Quais são os principais desafios e aprendizados ao lidar com setores tão variados?

Investir em várias empresas é uma das etapas da jornada. A fase inicial é construir um produto, depois sobreviver como profissional, fazer crescer o negócio, profissionalizá-lo, expandir e, via de regra, até vender o negócio nessa fase. Agora, estou na fase de diversificação, onde o maior desafio é formar líderes empresariais. Antes, eu era o CEO dessas empresas, mas agora o foco é desenvolver CEOs, não apenas líderes de áreas.

Como você vê a evolução da transformação digital no Brasil? Onde estamos no cenário global e o que falta para avançarmos mais?

É um caminho sem volta? No Brasil, vivemos uma dualidade na transformação digital. Enquanto médias e grandes empresas já estão altamente digitalizadas para ganhar eficiência e manter proximidade com o cliente phygital, micro e pequenos empreendedores ainda estão pouco digitalizados. Nesses casos, a digitalização se limita a sistemas operacionais e vendas, especialmente através de redes sociais. Falta uma cultura de transformação digital mais profunda, que busque otimizar processos com ferramentas tecnológicas para melhorar a eficiência. Apesar do acesso à tecnologia estar disponível, essa diferença entre grandes e pequenos negócios é significativa.

Você é conhecido por seu estilo de liderança focado em pessoas. Na sua opinião, quais são as habilidades interpessoais mais importantes para um empresário de sucesso hoje?

E como essas habilidades podem ser desenvolvidas dentro de uma organização? A principal habilidade de um líder de alta performance é formar pessoas, construindo valores, habilidades técnicas e comportamentais. Esse líder deve desenvolver pessoas e depois delegar atividades. No processo de delegação, dois pontos são fundamentais: a demonstração de como realizar a tarefa, tanto tecnicamente quanto comportamental, e a supervisão. A crise de liderança atual surge da falta de habilidades para desenvolver pessoas e da insegurança em delegar corretamente. Muitos líderes apenas delegam sem ensinar, o que sobrecarrega, pois acabam fazendo o trabalho dos outros, em vez de construir equipes autônomas e capacitadas.

Com sua vasta experiência em liderar diversas empresas e projetos, quais são, na sua opinião, as principais qualidades de um líder eficaz?

Como você aplica essas qualidades no dia a dia de seus negócios? Uma das principais qualidades de um líder eficaz é a capacidade de se conectar com as pessoas e influenciá-las. Seu papel é construir conexões e fazer o time funcionar de forma produtiva. O principal trabalho é garantir que a equipe opere como um todo, com cada membro contribuindo para a produtividade do grupo. Para isso, o líder deve estruturar um time multidisciplinar, com visões complementares, que não apenas opinem, mas também ajudem na execução. Essas qualidades são aplicadas no dia a dia, tanto em microinterações informais quanto em interações mais planejadas e intencionais. O líder deve ser flexível, mas também formal quando necessário, utilizando ferramentas como o Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) e o Plano de Desenvolvimento de Liderança (PDL) para promover o crescimento e a liderança dentro da equipe.

Pode nos explicar o que é o método MAP e como ele se diferencia de outras abordagens de crescimento empresarial?

O diferencial do MAP é focar na construção de liderança, não apenas nas habilidades técnicas de gestão do negócio. Enquanto a gestão envolve saber o que medir e melhorar, a liderança se concentra em quem desenvolver, como desenvolver e como delegar. Muitos cursos focam apenas em ferramentas de gestão, que ajudam, mas não constroem a infraestrutura social de uma empresa, que é baseada na liderança. Uma empresa é uma organização de pessoas que, com processos bem definidos, entregam bons produtos aos clientes. O papel da liderança é garantir um portfólio de produtos de qualidade, processos ajustados e pessoas certas nos lugares certos. O MAP trabalha essa perspectiva de liderança, que gera valor para o negócio, resultando em lucro. Esse lucro torna o negócio valioso e permite que, no futuro, se transforme em patrimônio ao ser vendido como um ativo valioso, graças a bons produtos e pessoas eficazes.

Muitos dos seus investimentos têm foco em tecnologia. Como você enxerga o papel da responsabilidade social e da sustentabilidade nas empresas que você apoia e constrói? Esse é um critério importante para você?

As empresas têm um papel social a cumprir, começando pela sustentabilidade, especialmente quando lidam com recursos naturais. Elas devem desenvolver negócios sem destruir o planeta, garantindo que a vida continue e prospere, o que também assegura a continuidade do próprio negócio. Além disso, as empresas geram valor social ao oferecer empregos, dignidade e oportunidades de crescimento. A responsabilidade social de uma empresa é, em grande parte, gerar lucro, pois isso permite reinvestir no negócio, fomentar a prosperidade e criar mais oportunidades de trabalho. No entanto, muitas empresas confundem sua função com a de resolver problemas sociais, como educação, que cabem à outras instituições. Por exemplo, o Instituto Projeto de Vida, que fundei, foca na transformação social, mas isso é separado do objetivo das empresas nas quais invisto, que é gerar lucro. Cada organização deve ter um foco claro e único, para evitar desperdício de recursos e confusão de propósitos, garantindo que cada uma cumpra sua missão de forma sustentável e eficaz.

Como sócio-fundador do Instituto Projeto de Vida, ONG dedicada à educação e formação de pessoas para o mercado de trabalho, qual foi a inspiração por trás dessa iniciativa e como você enxerga seu impacto na sociedade?

O Instituto Projeto de Vida tem como foco oferecer oportunidades de capacitação profissional para pessoas fora do mercado de trabalho, devolvendo-lhes a dignidade por meio da formação em ambientes empresariais, no uso de softwares e também em aspectos emocionais. A missão é reintegrar essas pessoas ao mercado de trabalho. A inspiração vem da crença de que parte do que colhemos na vida é resultado de nosso esforço, mas outra parte é um presente da vida. Com gratidão, esse projeto busca devolver à sociedade o que recebemos dela, atuando com responsabilidade social. Se não acolhermos e resolvermos problemas que afetam negativamente nossa sociedade, corremos o risco de agravar a desigualdade. O Instituto busca reduzir essa diferença, ajudando aqueles que estão fora do mercado a alcançar a dignidade e o sucesso que já experienciamos.

Além de investir em diversos negócios, você é conhecido por valorizar a família e frequentemente compartilha boas práticas de relacionamento, abrindo as portas de sua casa para receber casais alinhados com esse pensamento. Qual a sua expectativa com essa ação?

O trabalho com casais é fundamental porque a família é a base de todo empreendimento. É nosso primeiro projeto, onde nos associamos a alguém para construir algo maior: gerar e educar pessoas, transmitindo caráter e cultura. A família, de certa forma, é uma versão reduzida e segura do empreendedorismo, onde lidamos com diferenças — de comunicação, gostos e perfis — e aprendemos a influenciar pelo exemplo, não pelo poder. Se não formos capazes de influenciar, apenas daremos ordens sem desenvolver a consciência dos outros. A família ensina os princípios e valores necessários para o sucesso em qualquer negócio. Quando o casal está bem, a empresa também tem mais chances de prosperar, pois há apoio emocional nos dias difíceis e equilíbrio nos momentos de sucesso. Por isso, trabalhamos fortemente essa unidade chamada casal.

Além de todos os seus empreendimentos e sucesso empresarial, qual você diria que é o seu propósito de vida? E como isso impacta suas decisões de negócios e suas ações sociais?

Meu propósito de vida é impulsionar pessoas, famílias e negócios, ajudando a gerar mais valor para a sociedade e promover o crescimento e a evolução da vida, que é a verdadeira essência da existência. Quando observo a natureza, vejo como a vida cresce com força, e isso me inspira. Meu verbo é “impulsionar”, e isso guia meus comportamentos. Impulsionar significa apoiar quem realmente deseja crescer, sem forçar ou empurrar. Não posso querer o desenvolvimento de alguém mais do que a própria pessoa. É preciso que haja alinhamento entre o que a pessoa deseja e meus objetivos para que possamos caminhar juntos. O impulso depende da responsabilidade da pessoa em querer e agir.

Você se envolve diretamente com o desenvolvimento de novos empreendedores por meio de palestras e mentorias. O que mais te surpreende na nova geração de líderes e empreendedores?

E o que eles ainda precisam aprender? Me envolvo porque acredito que esse é o papel fundamental de um líder. Não acredito que o desenvolvimento dos liderados deva ser terceirizado, como muitas empresas fazem com suas áreas de recursos humanos. O líder deve ser o exemplo e se dedicar à essa jornada, influenciando diretamente seus liderados. O mesmo vale para os pais que terceirizam a educação dos filhos, o que pode comprometer seu desenvolvimento emocional e habilidades. Na MAP e na Zuper, estou presente e ativo em cada processo, garantindo que os empreendedores absorvam o que ensino e saiam com um planejamento sólido para fazer seus negócios crescerem e serem valorizados em milhões. Minha responsabilidade é assegurar que eles compreendam e executem o que foi aprendido.

Já foi eleito um dos 10 palestrantes mais influentes do país em 2021 e continua palestrando. É uma carreira que pretende escalar?

Sempre acreditei na educação como uma alavanca para a prosperidade, e isso tem sido um princípio fundamental em minha trajetória, tanto agora com a Zuper, quanto nos trabalhos anteriores com palestras e workshops. Desde os 16 anos, atuo na área da educação e valorizo profundamente seu poder transformador. Quanto a escalar as palestras, talvez eu participe de eventos mais seletivos ou de maior impacto, mas estou satisfeito com a repercussão atual. Meu foco agora é expandir a Zuper e a MAP, pois acredito que esses empreendimentos têm o potencial de transformar a realidade dos empreendedores brasileiros.

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