Os paradoxos não revelados

O que é, o que é: come, veste, pisa e bebe, mas não sabe de onde tudo isso vem?

Adalberto Deluca | Fotos Divulgação

No imaginário coletivo das grandes cidades, o que define o agronegócio é um amontoado de tratores, bois ruminando preguiçosamente e senhores de chapéu de palha em colheitadeiras. É quase como se tudo que chega às prateleiras dos supermercados surgisse num passe de mágica: o leite brota nas caixinhas, o arroz nasce já empacotado e o feijão, claro, vem ao mundo cozido em embalagens de vidro.

E muitos teimam em ignorar que não é bem assim. Se todos permitirem, posso contar esse segredo (que na verdade nem é segredo, mas ninguém parece prestar muita atenção): a grande maioria de tudo que se consome vem do campo, e não do UberEats ou iFood, ou das fábricas esfumaçadas que suprem os magazines, ou das passarelas estonteantes cheias de vitrines dos shoppings.

Dos lençóis macios em que amantes se entregam (né Rei?) e nem mesmo as fraldas macias que absorvem o um e o dois dos bebês cute-cute, de verdade mesmo, brotaram fora das lojas e prateleiras de supermercados. E se, amanhã de manhã, ele pedir um café para os dois… (Opa! Daqui a pouco tem fiscal na linha!) também ali não foi a cafeteira mágica e suas cápsulas amestradas que “geraram” a bebida revigorante dos tais amantes.

A salada que você elogia no restaurante natureba e o churrasco que você posta no Instagram no domingo são frutos do suado trabalho de homens e mulheres que, por incrível que pareça, estão bem longe de desfrutar do glamour da sua fotinha. Enquanto você escolhe o corte perfeito de carne no açougue gourmet, lá está o pecuarista lidando com surtos de clima maluco: ora seca demais, ora chuva demais.

No verão? É calor infernal que queima as plantações. No inverno? Geada que mata o que sobrou. Ser agricultor no Brasil é basicamente participar de um reality show de sobrevivência, com menos drama na TV e, muitas vezes, prejuízo no final. Mas o agronegócio não sofre só com o clima, não. Não mesmo. Imagine que você plantou sua lavoura com carinho, adubou, colheu, transportou…

E aí, chega no mercado e o preço está mais baixo que o nível de água do Uberabinha. Parabéns, você plantou, trabalhou e colheu um belo prejuízo! Ah, e não podemos esquecer das oscilações do mercado internacional, dos juros e de famigeradas moedas. Se a China resolver comprar soja de Marte porque a gravidade lá favorece, pronto, o agricultor brasileiro está ferrado. Parece piada, mas essa volatilidade está sempre batendo à porta, tornando a agricultura mais arriscada do que investir em criptomoedas.

Enquanto isso, os grandes centros urbanos vivem alheios à essa dura realidade, como se o que vem da terra fosse tão certo quanto a entrega de um pedido online. E os agricultores, heróis invisíveis da mesa farta. Mas espere, não termina aí. Porque além de enfrentarem a natureza, o mercado, e – por que não dizer – a falta de reconhecimento, os agropecuaristas brasileiros têm uma outra pedra no sapato: governos.

Claro, governos gostam de aparecer na mídia falando que apoiam o agronegócio, que incentivam, que isso e aquilo. Mas quem está lá no campo sabe que a política agrícola, quando não é incerta, muitas vezes é ineficiente. E quando vem alguma medida de socorro, é mais ou menos como um curativo em um machucado que já precisava de pontos faz tempo. A verdade é que a galera do campo, em vez de esperar socorro, se vira como pode.

E se você pensa que é só isso, ainda não ouviu falar da falta de mão de obra. Sabe aquele papo que no campo não precisa de qualificação, que qualquer um faz? Pois é, mito galático. Hoje, o agronegócio está cheio de tecnologia de ponta. Máquinas autônomas, sistemas de irrigação inteligentes, drones que monitoram plantações. Ou seja, se não tiver gente capacitada, nada disso funciona. É como dar um avião para alguém que mal sabe dirigir. E adivinha? Tá faltando esse pessoal capacitado.

A juventude quer saber mesmo é de TikTok e não de operar tratores high-tech. Então, temos essa receita peculiar: os agricultores estão cada vez mais eficientes, buscando práticas sustentáveis, preservando florestas e a fauna. E se for falar de árvore derrubada, dá uma voltinha no campo e verás que tvs vivem disso, criar fatos para render mais e azar de quem vive a realidade do lado verde da força.

A busca de tecnologia para melhoria do desempenho das lavouras cria um primeiro paradoxo – plantar menos, colher mais, gerar mais alimento porque o bebê cute-cute que enche a fralda quer mesmo é mamadeira e papinha de… frutas. Ali gera-se riquezas, que fazem viver as cidades do interior e para o Brasil inteiro onde não canta o sabiá. E com tudo acontecendo ao mesmo tempo, o agronegócio enfrenta quedas de receita ano após ano. É o segundo paradoxo do século XXI: mais produção, menos lucro. Parece piada, né? Mais paradoxal ainda é encher o tancão dos Porches e Pickups com gasolina sem lembrar que os 27% de etanol é agro ou que o diesel do bem com menor taxa de CO2 tem agro na mistura. O que dizer também da amiga chique que trabalha em laboratórios cibernéticos ou na fábrica urbanizada de tratores, que depois vão ao campo para produzir mais e mais. Ah! E essas máquinas chegam lá por um preço que faz muito Louboutin e Louis Vuitton ficarem tímidos ou, até quem sabe, levemente ruborizados.

E enquanto isso, o pessoal da cidade segue na sua ignorância gourmet, feliz com o hambúrguer artesanal e o pão de fermentação natural, sem se dar conta de que tudo isso vem de algum lugar distante onde o clima, o mercado e a política são os verdadeiros chefes. Então, da próxima vez que for ao mercado ou se sentar no seu restaurante favorito, lembre-se: por trás daquela carne suculenta e daquela verdura fresquinha, há um agricultor que, enquanto você estava decidindo entre quinoa ou arroz integral, estava rezando para o sol não queimar sua lavoura ou para o preço do milho não despencar. Ah, a vida no campo… Tão simples na imaginação de quem nunca pisou num curral. Toma lá, consome cá E como estamos às voltas aqui com o tanto que se produz lá e consome-se aqui, olhemos uma listinha bem interessante do que é que se produz dos lados da cerca. E sendo idôneo com essa liturgia, também a listinha do que se produz aqui confiando na agropecuária como utilizador de tais. A agropecuária é fundamental na produção de muitos itens, indo além dos alimentos para incluir matérias-primas que usamos em roupas, cosméticos, combustíveis e muitos outros aspectos da vida cotidiana.

Aqui está uma lista abrangente de produtos que consumimos e que têm origem direta ou indireta nesses setores:

Produtos de Origem Agrícola:

1. Alimentos básicos e grãos: – Arroz; Milho; Trigo; Centeio; Aveia; Feijão; Soja; Lentilha; Quinoa

2. Frutas: – Maçã; Banana; Laranja; Limão; Abacaxi; Manga; Uva; Morango; Melancia; Abacate

3. Verduras e legumes: – Alface; Tomate; Cenoura; Batata; Cebola; Pimentão; Couveflor; Brócolis; Pepino

4. Oleaginosas e produtos derivados: – Castanha-do-pará; Amêndoas; Nozes; Amendoim; Óleos de soja, de girassol e de canola

5. Açúcares e adoçantes: – Açúcar de cana; Açúcar de beterraba; Melado; Mel; Stévia

6. Bebidas: – Café; Chá; Sucos de frutas; Cerveja (cevada e lúpulo); Vinho (uva)

7. Produtos industrializados: – Farinha de trigo dos pães, massas, bolos e pizzas; Amido de milho ou maisena; Cereal matinal; Chocolate (cacau); Sorvete (leite e açúcar)

8. Especiarias e temperos: – Pimenta; Alho; Cúrcuma (açafrão-da-terra); Gengibre; Canela

Produtos de Origem Pecuária:

1. Carnes: – Carne bovina; suína; de frango; de peixe; de carneiros e ovelhas;

2. Laticínios: – Leite; Queijo; Iogurte e gregos; Manteiga; Creme de leite

3. Ovos: – Ovos de galinha e de codorna

4. Mel e produtos apícolas: – Mel; Própolis; Cera de abelha

5. Derivados da pecuária para outros usos: – Couro (para roupas, sapatos, acessórios); Lã (para tecidos e vestuário); Gelatina (extraída de ossos e cartilagens)

6. Cosméticos e de higiene: – Sabonetes e xampus; Cremes e hidratantes (óleos como o de amêndoas e manteiga de karité); Cera de abelha em batons

Biocombustíveis:

– Biodiesel (produzido a partir de óleos vegetais, como soja e dendê); Etanol (de cana-de-açúcar e milho)

Insumos para outros produtos:

– Algodão (para tecidos e roupas); Celulose (para papel e embalagens); Fibras vegetais (como juta e sisal para cordas e sacarias) Eis aqui uma série justa de produtos industrializados nos centros urbanos para a agropecuária e que são essenciais para o desenvolvimento das atividades produtivas do Agronegócio. Seja para melhorar a produtividade quanto para garantir a saúde e o bem-estar de animais ou a qualidade das plantações.

1. Fertilizantes e Adubos:

– Adubos nitrogenados, fosfatados, potássicos;

– Fertilizantes organominerais e Fertilizantes foliares

2. Defensivos Agrícolas (Agrotóxicos):

– Herbicidas, Inseticidas e Fungicidas; Acaricidas; Bactericidas

3. Sementes e Mudas Tratadas:

– Sementes híbridas e geneticamente modificadas; Tratamento industrial para proteção inicial das culturas; genética para Mudas de alta produtividade

4. Produtos para Controle Biológico:

– Insetos benéficos criados em laboratório (como joaninhas e vespas para controle de pragas); Bactérias e fungos benéficos; Biofertilizantes (à base de microrganismos)

5. Máquinas e Equipamentos: – Tratores; Colheitadeiras; Plantadeiras; Pulverizadores (para aplicação de defensivos); Sistemas de irrigação (como pivôs centrais e gotejadores)

6. Produtos de Irrigação e Drenagem: – Tubos de PVC para irrigação; Bombas d’água; Filtros para sistemas de irrigação; Sensores de umidade do solo

7. Rações e Suplementos Alimentares: – Ração balanceada (para diferentes espécies: bovinos, suínos, aves, peixes); Suplementos proteicos e energéticos; Aditivos para ração

8. Medicamentos e Produtos Veterinários: – Antibióticos veterinários; Antiparasitários; Vacinas; Suplementos vitamínicos

9. Equipamentos de Ordenha e Processamento de Leite: – Ordenhadeiras automáticas; Tanques de resfriamento de leite; Pasteurizadores para leite; Equipamentos de embalagem e processamento de derivados (queijos, iogurtes)

10. Produtos de Higiene e Limpeza: – Para instalações pecuárias; limpeza para equipamentos de ordenha; para manejo dos animais

11. Máquinas e Equipamentos para a Pecuária: – Moegas e silos para armazenamento de grãos e ração; Trituradores e misturadores de ração; Máquinas de fenação; Bebedouros e comedouros automáticos

12. Produtos Industrializados para Infraestrutura: – Materiais de Construção; Estruturas metálicas para galpões e silos; Telhas e lonas; Equipamentos de cercamento elétrico

13. Energia e Tecnologia: – Sistemas de painéis solares para eletrificação rural; Geradores de energia elétrica; Sensores e softwares de monitoramento em fazendas inteligentes

Tudo isso é essencial para a produção moderna, para melhorar a eficiência, reduzir custos, aumentar a produtividade e garantir a sustentabilidade das atividades. O uso de tanta tecnologia e insumos industriais na agropecuária permite a maximização da produção de alimentos e matérias-primas, atendendo à crescente demanda mundial.

Nas lindas férias com água de côco, milho verde e queijo-coalho (não se esqueça do orégano); na boutique daquele lindo vestido e o costume super 100 para a festa de gala; depois da consulta com a nutricionista com receita de muita castanha, quinoa, sem glúten, tilápia e granolas; na pizza da Nona ou no macarrão na Mama; no salão de beleza com xampus de compostos naturais e no belo batom que produz bocas sedutoras ou, quem sabe ainda, naquele brinde regado ao melhor espumante e flores será sempre bem-vindo o seu “Muito obrigado!”.

E, para ser ainda mais paradoxal, pensemos no quanto de salários e impostos são gerados para que tudo seja entregue ao campo para que o campo gere (quase) tudo que nos satisfaz ou nos dê o sagrado pão e vinho. Salute!!!

O paradoxo ou oxímoro é uma figura de linguagem, mais precisamente uma figura de pensamento, baseada na contradição lógica das ideias.

Adalberto Deluca é consultor empresarial com foco em gestão para resultados.

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