A adoção de tecnologias no agronegócio brasileiro: alguns aprendizados

Mauricio Lemos | Fotos Divulgação

Com o avanço da conectividade no campo, o uso das chamadas tecnologias digitais também se intensifica

Sim, a Inteligência Artificial (IA) será usada no agronegócio. Já está em uso. O foco não é se ela será adotada, mas como será utilizada com responsabilidade e critério.

Em tempos de manchetes virais e promessas de revolução, é preciso dizer com clareza: IA não substitui conhecimento. Ela se alimenta dele e o processa. O verdadeiro diferencial não está em adotar IA, mas em cultivá-la com dados consistentes, com ciência aplicada, com o saber acumulado por quem realmente conhece o ato de produzir.

Mais do que temer a IA, deveríamos ter receio do profissional despreparado – aquele que fala com convicção, mas sem base. Prefiro uma IA treinada com conhecimento sólido a um especialista raso com discurso sedutor.

O agronegócio brasileiro, vale lembrar, é consumidor de tecnologia de ponta há décadas. Não é de hoje que se investe pesado em pesquisa e desenvolvimento para obter sementes, fertilizantes, maquinário e insumos de altíssimo nível. O produtor rural já convive, naturalmente, com ciência aplicada.

Com o avanço da conectividade no campo, o uso das chamadas tecnologias digitais também se intensifica. Sistemas baseados em dados passam a apoiar decisões antes da porteira, dentro da porteira e depois da porteira – como é didaticamente segmentada a cadeia do agronegócio.

Esse apoio é essencial, pois quem vive da produção agropecuária opera uma fábrica a céu aberto e toma decisões complexas todos os dias. E faz isso com base em experiência, intuição e técnica. É aí que a IA entra: para auxiliar a enxergar os possíveis caminhos para a tomada de decisão.

Da análise do solo e do clima ao transporte e armazenagem da produção, passando pela criação genética de novas variedades de alimentos, todas as etapas operacionais do agro podem se beneficiar da inteligência artificial – desde que orientadas por critérios técnicos, científicos e pela experiência do produtor.

Não se deve esperar por uma IA única e definitiva para o setor. A agricultura é diversa, regional, multifacetada. É mais realista – e desejável – que tenhamos várias IAs especializadas, cada uma ajustada a um contexto, cultura ou processo. E quanto mais especializadas, melhor.

Embora a conectividade ainda represente um desafio em determinadas regiões, a principal barreira continua sendo cultural: é preciso promover o conhecimento e abandonar a ideia de que a IA é um mistério. Ela não é oráculo, não é ameaça – é ferramenta.

Hoje, a tecnologia está disponível. O que falta, é compreensão sobre como aplicá-la. Estamos na era da Indústria 4.0 e, nesse cenário, a confiança algorítmica depende da competência das instituições e dos desenvolvedores envolvidos.

A IA não vai eliminar erros – e tudo bem! Só erra quem decide. Mas ao menos, vamos errar com mais contexto, mais base, mais consciência.

Portanto, menos dúvidas retóricas e mais responsabilidade com o conhecimento que estamos construindo. A tecnologia está pronta. E você?

Maurício Lemos é sócio-cofundador da Sapiens Agro.

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