O fim parcial do tarifaço e seus impactos no Brasil

Carolina Barros | Revista Hub Club

Agronegócio comemora avanços, enquanto indústria segue sob pressão nos Estados Unidos

A recente decisão do governo dos Estados Unidos de retirar 238 produtos brasileiros do chamado tarifaço trouxe um importante alívio para parte expressiva da pauta exportadora nacional — especialmente para o agronegócio. A medida, anunciada pela Casa Branca, elimina a sobretaxa de 40% sobre itens como carne bovina, café, frutas, especiarias, cacau, açaí, sucos e fertilizantes. A isenção vale inclusive de forma retroativa para produtos que chegaram ao território americano a partir de 13 de novembro, possibilitando reembolsos.

O avanço foi comemorado pelo governo brasileiro. Segundo o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, a fatia das exportações sujeitas ao tarifaço caiu de 36% para 22% após o novo pacote de liberações — o maior avanço desde o início da crise tarifária.

Apesar disso, setores estratégicos da indústria continuam afetados. Máquinas, motores, móveis, calçados, pescados, mel e café solúvel permanecem sujeitos à taxa adicional de 40%, enquanto aeronaves da Embraer seguem enfrentando tarifa de 10%. Produtos siderúrgicos e de alumínio continuam sob as restrições horizontais da Seção 232.
De acordo com dados do MDIC, dos US$ 40,4 bilhões exportados pelo Brasil aos EUA em 2024:

  • US$ 14,3 bilhões já estão livres de quaisquer sobretaxas;
  • US$ 8,9 bilhões seguem pagando tarifa adicional de 40% (ou 10% + 40%);
  • US$ 6,2 bilhões continuam com tarifa extra de 10%;
  • US$ 10,9 bilhões seguem sob as tarifas da Seção 232.

Para a secretária de Comércio Exterior, Tatiana Prazeres, a expansão dos itens isentos representa um avanço significativo — a parcela totalmente livre de tarifas adicionais cresceu 42% desde o início das negociações. Ainda assim, ela ressalta que a indústria demanda atenção especial, já que redirecionar produtos manufaturados para outros mercados é muito mais complexo do que realocar commodities agrícolas.

Setores que ganham força

A retirada das sobretaxas impulsiona diretamente os seguintes segmentos:

  • Carne bovina (todas as categorias)
  • Café verde, torrado e derivados
  • Frutas frescas, processadas e congeladas
  • Açaí, cacau e derivados
  • Especiarias como pimenta, gengibre, cúrcuma e canela
  • Raízes e tubérculos, como mandioca
  • Sucos e polpas naturais
  • Fertilizantes — essenciais para a produção agrícola

O movimento tende a ampliar a competitividade brasileira em um dos mercados mais disputados do mundo, abrindo espaço para expansão de contratos já em andamento e novos acordos comerciais.

Efeitos sobre o consumidor e sobre a economia

Para o consumidor brasileiro, o impacto deve vir principalmente por meio do agronegócio. A liberação de fertilizantes reduz custos de produção e pode gerar maior estabilidade nos preços de alimentos ao longo de 2025. Para o mercado financeiro, o movimento melhora a percepção de risco e contribui para manter o câmbio menos pressionado.

Já para o setor industrial, a manutenção das tarifas gera preocupação. A permanência de barreiras de até 40% reduz competitividade, encarece exportações e limita oportunidades. Por isso, o governo brasileiro deve continuar pressionando Washington para ampliar as isenções.

Um novo capítulo nas relações comerciais Brasil–EUA

O alívio tarifário representa uma melhoria significativa no diálogo bilateral e abre uma janela estratégica para o país fortalecer sua presença no mercado norte-americano. Contudo, o desafio permanece: avançar na diversificação da pauta exportadora e reduzir a dependência de commodities.

O tarifaço perdeu força — mas o trabalho para reconstruir a competitividade industrial brasileira no exterior continua.

Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República

Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República

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