Quanto risco, quanta alegria, muitos hectares sem ação…
Adalberto Deluca | Fotos Divulgação
Não é uma valsa carnavalesca. É uma epopeia de dúvidas e riscos.
Não é um conto de fadas. É manchete para uma tragicomédia.
Não é uma ópera bufa. É um roteiro de ação e final incerto.
Mas alguém tem de falar disso.
Entre a semente e a colheita: um mar de incertezas
A comida está na mesa. Sim, hoje está. Mas pare por um momento e pense: quanto disso chegou até você sem que alguém, em algum lugar, tivesse que fazer uma escolha impossível? Sem que precisasse apostar tudo em um lance de dados?
Bem, aqui no Brasil, quem cultiva a terra não está jogando em um cassino. Está em algo bem pior: está navegando em um furacão sem bússola, sem radar, sem nada que garanta que chegará ao porto. A agricultura brasileira, que alimenta não apenas nosso povo, mas boa parte do mundo, está enfrentando um momento que vai além da crise. É uma metamorfose completa, uma reescrita das regras do jogo.
Não se trata de dramatização. Trata-se de verdade crua: há comida nas prateleiras, mas há incerteza nos campos. E isso, é um alerta para a nação.

Capital escasso: o talento que falta
Vamos começar pelo óbvio que ninguém quer admitir: não há dinheiro. Ou melhor, há. Está lá nos bancos, nos fundos de investimento, mas chegar até o agricultor? Aí é outra história para não contarmos sob o risco de perder o apetite.
O planejamento financeiro de um produtor rural virou uma ginástica mental digna de olimpíada. Precisa investir em máquinas? Pois bem, o crédito está ali, pronto para ser emprestado. Mas a que custo? Juros que beiram o confisco. Não se trata de exagero. Quando você pega dinheiro emprestado a uma taxa que faz seu custo de produção explodir, você não está tomando crédito. Você está assinando um contrato de frustração.
O problema é que sem esse capital, não há como iniciar a safra. É como pedir a alguém para cozinhar sem ingredientes e depois reclamar se a comida não fica boa. Os agricultores estão presos em um ciclo: precisam gastar para ganhar, mas ganham cada vez menos. E aí? Recorrem aos bancos. E os bancos? Bem, eles cobram pelo “risco”.
A verdade incômoda é que o risco real não está apenas no produtor. Está no sistema todo. Quando os juros sobre o planejamento agrícola ficam tão altos, você não está financiando a produção de alimentos. Está financiando a insegurança alimentar do país e de países.
Tributação: uma reforma sem papel
Se você acha que a situação no campo é complicada, espere até falar de impostos. Aqui a gente não fala em crise tributária. A gente fala em reforma tributária. Mas reforma para quê? Para ficar mais caro? Porque é isso que está acontecendo.
O planejamento tributário na agricultura é como tentar jogar xadrez enquanto alguém muda as regras a cada lance. Normalmente, o produtor rural tem certas vantagens fiscais. Mas com as mudanças em andamento, essas vantagens estão desaparecendo mais rápido do que você consegue dizer “alíquota diferenciada”.
A ironia? Enquanto a gente debate em Brasília sobre como reformar a tributação, o agricultor segue com a enxada na mão, tentando entender qual será sua carga tributária no próximo trimestre. É como estar em um navio durante uma tempestade enquanto a tripulação discute se a bússola deveria estar mais para a esquerda ou para a direita.
As mudanças tributárias em curso não é apenas uma questão de números. É uma questão de segurança. O produtor precisa saber, com alguma clareza, quanto vai contribuir para o Estado. Sem isso, ele não consegue fazer um planejamento eficiente. E sem um planejamento eficiente, ele não consegue competir. E sem competição saudável, o mercado inteiro sofre.
Tecnologia: o raio de luz no fim do túnel
Agora, em meio a todo esse caos, há algo que funciona. Há algo que está mudando a conversa lá no campo. Chama-se inovação.
Se pensar bem, a tecnologia é o único fator em que a agricultura brasileira realmente se destaca. Máquinas cada vez mais precisas, insumos cada vez mais eficientes, sistemas de gestão que transformam dados brutos em decisões inteligentes. Isso não é ficção científica. Isso está acontecendo, agora.
A eficiência que a tecnologia traz é real. Um agricultor que usa sistemas de inteligência artificial para monitorar a umidade do solo, a saúde das plantas e os padrões climáticos consegue tomar decisões melhores. Consegue economizar água, economizar insumos, aumentar a produtividade. Consegue transformar um campo anárquico em uma operação cirúrgica.
Mas aqui está o detalhe que machuca: toda essa inovação custa caro. Muito caro. E como vimos, capital escasso e juros elevados não combinam bem com investimentos tecnológicos. É como oferecer um Ferrari a alguém que não consegue pagar a gasolina.
Ainda assim, a inovação continua avançando. Porque os produtores sabem que é ali que está a salvação. Não é na lamentação. Não é na estagnação. É na coragem de adotar novas formas de trabalhar, novos equipamentos, novas estratégias. É na capacidade de fazer mais com menos.
Clima: o fator que ninguém controla
Se há algo que iguala todos os agricultores do Brasil, ricos ou pobres, grandes ou pequenos, é isto: ninguém controla o clima. E ultimamente, o clima está bem indisciplinado.
Os riscos climáticos não são mais uma possibilidade remota. São a realidade diária. Você planta esperando chuva e vem seca. Você prepara tudo para colher com sol e vem enchente. É como jogar um jogo em que as regras mudam a cada rodada e ninguém avisa.
O impacto disso no planejamento agrícola é devastador. Como você faz previsões quando as variáveis estão mudando tão rapidamente? Como você investe em uma safra sabendo que uma geada fora de época pode destruir tudo? Esses são os riscos reais que o agricultor enfrenta todos os dias.
E aqui está a questão que ninguém consegue responder com precisão: os riscos climáticos estão aumentando? Sim. Estão sendo causados apenas por fatores naturais? Não sei. Estão fora do controle do produtor? Absolutamente. Então o que fazer?
A resposta, por enquanto, é adaptação. Escolher culturas mais resistentes. Investir em sistemas de irrigação. Diversificar. Mas tudo isso custa dinheiro. E dinheiro, como já estabelecemos, é o que menos há no campo.
Preços: a montanha-russa das commodities
Deixe-me contar uma história que resume bem o dilema. Um produtor planta soja há vinte anos. Nos últimos dez, ele viu o preço subir, descer, explodir, despencar. Viu o dólar variar, o mercado internacional flutuar, as geadas destruírem safras inteiras. E sabe qual foi a constante? A dúvida.
A eficiência na produção melhorou. Os desafios para a agricultura aumentaram. E os preços? Bem, os preços continuam sendo a montanha-russa que ninguém consegue prever.
A volatilidade das commodities é como tentar acertar uma fechadura enquanto ela não para de se mover. O produtor investe baseado em uma projeção de preço. Mas quando a colheita chega, o preço já está diferente. Pode estar melhor (aí tudo mundo fica feliz por alguns meses). Pode estar pior (aí entra em pânico).
E o pior? O pior é quando o preço está tão baixo que não cobre nem o custo de produção. Quando você colhe e vende e no final descobre que perdeu dinheiro. Que gastou mais para produzir do que ganhou vendendo.
Isso não é raro. Isso é tendência. Nos últimos anos, vimos safras inteiras sendo colhidas com prejuízo. Arroz, milho, soja. A volatilidade dos preços das commodities transformou a agricultura em um jogo de azar onde as odds estão sempre contra você.
Muitos hectares, pouca ação: o futuro é uma incerteza
Então aqui estamos. Muitos hectares, muita gente trabalhando, muito potencial. Mas pouca ação. Por quê? Porque a indecisão é paralisa quando você está cercado de incerteza.
O agricultor olha para a fazenda e vê oportunidades. Vê possibilidades de crescimento, de inovação, de transformação. Mas olha para o cenário e vê obstáculos. Vê capital caro, impostos em mudança, clima imprevisível, preços flutuantes. E aí ele faz o que qualquer pessoa sensata faria: ele congela.
Não é preguiça. Não é falta de vontade. É que quando você está em um navio durante uma tempestade, às vezes a melhor ação é não se mexer. É esperar a tempestade passar. É tentar não cair de bordo.
Mas aqui está o problema: a tempestade não está passando. Ela está mudando de forma, mas não está passando. Então em algum momento, o agricultor vai precisar tomar uma decisão: fica parado esperando ou navega mesmo com a tempestade?
A agricultura brasileira não está acabada. Está em transformação. Profunda, desconfortável, assustadora, mas transformação. E transformação sempre dói. Sempre gera incerteza. E gera oportunidades para quem tem coragem de vê-las.
Os desafios para a agricultura são reais. São enormes. Mas são superáveis. Não com soluções mágicas. Com planejamento inteligente, com inovação constante, com adaptação rápida e com a coragem de continuar apostando em um setor que, sim, está em crise, mas que é essencial para a nação.
A comida continua na mesa. E para que continue chegando, precisamos que o agricultor tenha capital, que as regras tributárias façam sentido, que a tecnologia continue avançando, que ele consiga lidar com o clima impossível e que os preços façam algum sentido.
Precisamos, enfim, que ele saiba que há alguém vendo aquele mar de incertezas e entendendo que por trás de cada grão produzido há uma história de coragem, de eficiência, de luta contra os riscos e de esperança renovada a cada safra.
O encerramento da jornada: quando tudo se conecta
Aqui, na mesa da sua casa, está o resultado dessa jornada épica. Um arroz branquinho. Uma maçã vermelha. Um feijão bem cozido. Parece simples. Mas cada um desses alimentos passou por pelo menos onze etapas repletas de riscos, desafios para a agricultura, de decisões que podiam dar errado em qualquer momento.
E se você pensava que agricultor era simplesmente alguém que planta e colhe, agora sabe que não. Agricultores são engenheiros de risco. São tomadores de decisão sob incerteza. São guerreiros que enfrentam chuva, pragas, doenças, flutuação de preços, juros altos, impostos injustos, falta de capital, falta de assistência técnica.
Você, segurando aquele arroz no prato, está segurando o resultado de 6 meses de trabalho de alguém que não sabe se vai quebrar ou continuar para a próxima safra. Está segurando comida que quase não chegou até você porque máquina quebrou, ou porque chuva caiu no pior momento, ou porque praga invadiu a lavoura, ou porque preço desabou no mercado.
A comida não está na mesa por acaso. Está lá porque alguém, em algum lugar, assumiu riscos enormes. Porque alguém teve planejamento adequado, ou teve sorte, ou ambos. Porque alguém usa inovação constante, procurando fazer melhor a cada safra.
Então da próxima vez que você se reclamar que comida está cara, ou que desapareceu da prateleira, lembre-se dessa jornada. Lembre-se que há um agricultor lá atrás, enfrentando clima, mercado, sistema financeiro adverso, tudo isso para que você tenha comida no prato.
A agricultura brasileira não está acabada. Está em transformação. E essa transformação é difícil, desconfortável, assustadora. Mas é real. E o agricultor continua plantando, colhendo, armazenando, vendendo. Continua apostando em um setor que o aterroriza, que o desafia, que o faz rever suas convicções todo dia.
Apenas pense nisso: A comida não é cara e sabe por que?
Porque alguém, em algum lugar, estava colhendo prejuízo. Estava dormindo poucas horas por noite. Estava pedindo dinheiro emprestado a 18% ao ano. Estava rezando para que chovesse. Estava enfrentando pragas que resistem a defensivo. Estava vendo preço cair quando precisava subir.
E aqui, as verdades que ninguém quer ouvir
Você come porque alguém está disposto a quebrar financeiramente para isso acontecer.
Você come porque alguém sacrifica noites de sono.
Você come porque alguém enfrenta clima que não controla, mercado que não entende, banco que cobra caro, governo que não ajuda.
Você come porque alguém acredita que ainda vale a pena.
E sabe qual é a parte mais assustadora? Esse alguém está pensando em desistir.
Porque cansou. Porque não aguenta mais risco. Porque juros estão altos demais. Porque preço está baixo demais. Porque governo muda a tributação todo mês. Porque clima está cada vez mais louco. Porque praga está cada vez mais resistente.
Se esse alguém desistir, você fica sem comida. E não é uma piada. É a realidade que está acontecendo agora.
Mesmo assim, ainda restam boas notícias
Apesar de todos esses riscos, desafios para a agricultura e incertezas que mapeamos ao longo dessa jornada, há algo que ninguém consegue tirar do agricultor: a resiliência. A capacidade de olhar para uma tempestade e pensar “ok, como navego isso?”. Não é fé cega. É experiência acumulada. É conhecimento. É adaptação.
O agricultor brasileiro tem se reinventado constantemente. Onde havia problema, encontrou inovação. Onde havia falta de capital, buscou cooperativismo. Onde havia risco climático, desenvolveu variedades mais resistentes. Onde havia praga, desenvolveu manejo integrado. Onde havia solo ruim, usou tecnologia de precisão.
Isso significa que, sim, há enormes desafios para a agricultura nesse momento. Mas há também, em cada desafio, uma oportunidade de fazer algo melhor do que era feito antes. E agricultores enxergam oportunidades. É isso que os mantém acordados à noite — não o medo de fracassar, mas a esperança de acertar.
Então quando você comer seu alimento da próxima vez, saiba que está comendo esperança. Está comendo coragem. Está comendo a capacidade humana de enfrentar o inimaginável e transformá-lo em comida que alimenta nações.
Enquanto você dorme, o agricultor planta esperança. Enquanto você come, ele enfrenta imprevisibilidades. Enquanto você reclama, ele acredita que vale a pena. Porque sem você, ele não consegue. E sem ele, você não come.
Adalberto Deluca é consultor de empresas.
