Longevidade como vantagem competitiva. Por que olhar para profissionais 60+ faz sentido para o seu negócio
O envelhecimento da população brasileira costuma ser apresentado como um desafio. Mas, para quem empreende, ele também pode e deve ser lido como uma oportunidade estratégica. Em um país que envelhece em ritmo acelerado, ignorar a força de trabalho sênior é abrir mão de um ativo valioso: experiência, estabilidade emocional, comprometimento e repertório profissional acumulado ao longo de décadas.
Hoje, milhares de pessoas com mais de 60 anos seguem trabalhando, seja por necessidade, seja pelo desejo de continuar produtivas ou por entenderem o trabalho como parte fundamental de sua identidade e participação social. Ainda assim, o mercado brasileiro avança lentamente na construção de políticas e práticas que incorporem esses profissionais de forma estruturada. O resultado é um paradoxo: ao mesmo tempo em que faltam talentos qualificados em diversas áreas, profissionais experientes permanecem subaproveitados.
Para o empreendedor, essa conta não fecha.
Algumas empresas brasileiras já perceberam isso e vêm colhendo resultados concretos ao investir na diversidade etária. O Assaí Atacadista, por exemplo, estruturou um programa específico para profissionais 50+, que já resultou na contratação de milhares de trabalhadores mais velhos em diferentes áreas da operação. A empresa aposta em estratégias como acolhimento, integração intergeracional e permanência de longo prazo, justamente em um setor marcado por alta rotatividade.
O Carrefour Brasil também tem ampliado contratações de profissionais acima de 50 anos, inclusive aposentados, para funções operacionais e administrativas. O movimento responde a uma necessidade real do negócio: retenção de talentos, estabilidade das equipes e melhoria do clima organizacional. Não se trata de filantropia, mas de eficiência.
Empresas multinacionais com atuação no Brasil, como a Nestlé, vêm utilizando profissionais 60+ em ações comerciais, atendimento ao cliente e operações de campo, reconhecendo que maturidade, comunicação e confiabilidade são diferenciais competitivos, especialmente em mercados que dialogam diretamente com públicos mais maduros.
Esse movimento também tem sido impulsionado por iniciativas como a Maturi, organização brasileira que conecta empresas a profissionais 50+ e certifica empregadores comprometidos com a diversidade etária por meio do selo Age-Friendly Employer. Empresas como Volkswagen e Sanofi, que passaram por esse processo, relatam ganhos em engajamento, redução de rotatividade e fortalecimento da cultura organizacional. Nesses casos, a longevidade deixa de ser uma pauta abstrata e passa a integrar a estratégia de gestão de pessoas.
Estudos recentes da OCDE e da Organização Mundial da Saúde reforçam que equipes intergeracionais tendem a apresentar menor rotatividade, maior engajamento, melhor clima organizacional e maior capacidade de resolução de conflitos. Profissionais mais longevos, em média, permanecem mais tempo nas empresas, contribuem para a transmissão de conhecimento tácito e ajudam a reduzir erros operacionais, aquele tipo de aprendizado que não está nos manuais, mas sustenta o funcionamento real dos negócios.
Além disso, pesquisas mostram que trabalhadores mais velhos apresentam menores índices de absenteísmo, maior lealdade à empresa e alto senso de responsabilidade, sobretudo quando atuam em ambientes que valorizam sua trajetória. Em um cenário de escassez de talentos e alta rotatividade, esses fatores deixam de ser apenas sociais e passam a ser claramente econômicos.
Outro ponto central é o papel dos profissionais 60+ como mentores naturais. A presença desses trabalhadores favorece a troca intergeracional, acelera o aprendizado de equipes mais jovens e contribui para culturas organizacionais mais colaborativas, menos imediatistas e mais sustentáveis. Exatamente o que empresas em crescimento precisam para ganhar consistência no longo prazo.
É importante dizer que incluir profissionais longevos não significa ignorar adaptações necessárias. As empresas que têm sucesso nessa agenda investem em aprendizagem ao longo da vida, flexibilização de jornadas, adaptação de funções e ambientes menos ageístas. Na prática, essas mudanças beneficiam toda a equipe, não apenas os mais velhos.
O futuro do trabalho será, inevitavelmente, mais longevo. Empreendedores que compreenderem isso agora sairão na frente. Olhar para o público sênior como colaborador em potencial não é apenas uma resposta ao envelhecimento populacional, mas uma escolha estratégica diante de um mercado que exige maturidade, visão sistêmica e capacidade de construir valor no longo prazo.
Transformar longevidade em vantagem competitiva é uma decisão. E, para muitas empresas, pode ser exatamente o diferencial que faltava.
Anabel Machado C. A. Pilegis
Gerontóloga pela UFSCar
Mestre em Ciências da Saúde pela UFSCar
Desenvolveu pesquisa no iSupport-BR, uma plataforma gov.br em parceria com a OMS.
Foi consultora sênior no DGero-br, um projeto da UFSCar em parceria com o Ministério da Saúde
Cofundadora da Mielina, onde atua com atendimentos para pessoas idosas, desenvolvendo avaliação gerontológica, estimulação cognitiva e inclusão digital.
Experiência com consultoria para profissionais da saúde e educação com foco em empreendedorismo e economia da longevidade.

