Dependência química na velhice
O uso de substâncias pode surgir como tentativa de aliviar o vazio, a saudade, o sentimento de inutilidade ou a perda de sentido
Geni Costa | Foto: Divulgação
O país cresce e a população idosa avança com um público cada vez maior e mais envelhecido. Podemos afirmar que os centenários já nasceram e habitam fortemente várias regiões do país.
Sabemos que existem vários problemas que circundam o processo de envelhecimento e, dentre eles, está a dependência química. Ela é uma temática que ainda permanece, muitas vezes, à sombra — silenciosa, pouco falada, e por isso mesmo, carece de mais atenção e cuidado.
Embora seja muito associada aos jovens, a dependência química é um problema cada vez mais prevalente em idades avançadas. Cresce, entre elas, o uso abusivo de álcool, medicamentos, tabaco e outras drogas. Em muitos casos, não se trata de um início recente, em outros, o consumo começa mais tarde, como resposta a perdas, dores crônicas, solidão ou mudanças abruptas na vida.
O álcool continua sendo uma das substâncias mais presentes. Socialmente aceito, ele muitas vezes passa despercebido, mesmo quando o uso se torna prejudicial. Ele pode provocar doenças crônicas, acelerar o declínio e, em casos extremos, levar à morte.
O consumo do tabaco entre pessoas idosas é bem menor (cerca de 10%), que o da população em geral. Entretanto, aqueles que já fumam, consomem em alta escala, diariamente, podendo intensificar problemas de saúde.
Já os medicamentos, vem crescendo dissimuladamente, incentivados pela indústria farmacêutica, especialmente ansiolíticos, sedativos e analgésicos. Esses, por sua vez, trazem riscos como: o da dependência que se instala de forma gradual; podendo fugir do controle com o tempo, e, ainda, podem provocar irritabilidade, ansiedade ou mal-estar ao tentar suspender o uso.
Na velhice, os efeitos dessas substâncias tendem a ser mais intensos. O corpo já não metaboliza da mesma forma, aumentando os riscos de quedas, confusão mental, interações medicamentosas e agravamento de doenças.
Além disso, o sofrimento psíquico pode se intensificar, criando um ciclo difícil de romper.
Não podemos esquecer de salientar que, há um fator delicado que precisa ser melhor observado – o isolamento. Muitas pessoas já envelhecidas, vivem sozinhas ou com redes de apoio fragilizadas. O uso de substâncias pode surgir como tentativa de aliviar o vazio, a saudade, o sentimento de inutilidade ou a perda de sentido.
Enfrentar essa realidade, na qual existe dependência química, exige sensibilidade e cuidado. Não se trata apenas de retirar as substâncias viciantes, mas de compreender o que ela representa na vida de cada pessoa.
É preciso oferecer uma escuta ativa, fortalecer vínculos entre pares, criar alternativas de cuidado que respeitem a história e a singularidade de cada um.
Profa. Dra. Titular Geni de Araújo Costa
Universidade Federal de Uberlândia
Ativista do Envelhecimento Ativo
Podcaster
Comunicadora
Palestrante
@benditaidade

