Depois da tempestade vem a conta – e dessa vez, parcelada com juros altos

Adalberto Deluca | Fotos Divulgação

O agronegócio brasileiro não está em crise, mas em uma transformação que vai separar o joio do trigo, os homens dos meninos, as senhoras das debutantes…

Parece Aquele Papo de Sempre (Mas Agora É Diferente, Sério)

Quem vive ou trabalha com agronegócio há mais de uma década, já viu esse filme antes: commodities despencando, dólar nas alturas, clima fazendo birra, banco cobrando juros que nem agiotas medievais. A diferença? Antes era crise — aquela tempestade violenta que passa e deixa tudo bagunçado, mas passa. Agora é transformação estrutural. E transformação não passa. Ela fica, muda o endereço da sua casa e nem mesmo pede para dividir o aluguel.

No Triângulo Mineiro, celeiro que alimenta metade do Brasil e boa parte do mundo, a conversa nas cooperativas, nas reuniões da Faemg e nos cafés antes do leilão é sempre a mesma: “onde foi parar o dinheiro?” A resposta é simples e cruel — evaporou. O capital está escasso, caro e seletivo. Bancos viraram sommelier de crédito: só liberam para quem já tem tanto dinheiro que nem precisaria pedir emprestado.

Margem? Aquela que antes dava para comprar uma pick-up nova a cada safra agora mal paga o diesel. Custo de capital subiu mais rápido que inflação de supermercado em dezembro. E o produtor? Esse está aprendendo que a nova habilidade essencial não é manejar solo — é manejar Excel, fluxo de caixa e ansiedade.

As Crises Que Viraram Anedota (E As Pragas Que Eram Pesadelo Antes De Virar Piada)

Vamos fazer um exercício de memória coletiva, daqueles que deixam os mais jovens de queixo caído: nos últimos 30 anos, o agro brasileiro enfrentou a hiperinflação dos anos 90, o confisco da poupança, a maxidesvalorização de 1999, a crise asiática, a crise americana de 2008, a crise do impeachment, a pandemia…

Mas espera — a lista de vilões não para por aí. Porque a natureza também resolveu incrementar o roteiro com participações especiais dignas de filme de terror classe B:

�� Ferrugem asiática (início dos anos 2000): chegou de mansinho, se espalhou como fofoca em cidade pequena e virou o pesadelo de todo produtor de soja. Custo de controle? Astronômico. Perdas de produtividade? Catastróficas. Solução? Aplicação de fungicida que transformou o custo de produção em algo parecido com mensalidade de faculdade particular.

�� Cigarrinha-do-milho (anos 2010): pequenininha, insignificante aos olhos leigos. Mas capaz de transformar um milharal verdejante em paliteiro seco. E ainda por cima, vetora de doenças. O produtor descobriu que precisava virar entomologista nas horas vagas.

�� Mosca-branca (presente em várias culturas, intensificada nos últimos 15 anos): a celebridade do estrago. Ataca algodão, soja, feijão, tomate… basicamente, se você planta, ela come. E de sobremesa ainda transmite vírus para as plantas. Generosa.

�� Helicoverpa armigera (2013): a lagarta que veio de navio, literalmente. Importada junto com grãos, se instalou, gostou do clima tropical e resolveu ficar. Destruiu safras inteiras antes que alguém soubesse pronunciar o nome dela direito.

E sabe o que aconteceu em todas elas? O agro superou. Desenvolveu resistência genética, criou manejo integrado de pragas, investiu em pesquisa, adaptou calendário de plantio. Era como aquele personagem de desenho que leva porrada, vira panqueca no chão, levanta, sacode a poeira e sai correndo atrás do coiote.

Mas — e aqui mora o diabo com as malas prontas para se mudar — todas aquelas eram crises conjunturais. Durava dois, três anos. Governo mudava, taxa de juros caía, preço internacional subia, chovia no momento certo, descobria-se um defensivo milagroso e pronto: business as usual. O produtor mudava pouca coisa na essência. Trocava o gerente financeiro, renegociava dívida, plantava um pouquinho menos ou diversificava cultura. Mas o modelo de negócio permanecia intacto.

Hoje não. Hoje a casa não está apenas pegando fogo — estão mudando o código de obras enquanto você tenta apagar as chamas.

Bem-Vindo à Era da Transformação Permanente (Ou: Aprenda a Dançar Conforme a Música)

A palavra “crise” virou eufemismo. O que vivemos agora no agronegócio — especialmente aqui no Triângulo Mineiro, onde a soja briga com o café pelo protagonismo e o gado observa de canto, com a cana invadindo a cerca — é uma metamorfose forçada. Não é mais sobre resistir até passar. É sobre reinventar enquanto produz.

Gestão de negócios? Aquele caderninho onde o avô anotava despesa virou ERP, BI, dashboard em tempo real e reunião de governança. O produtor que ainda acha que “feeling” substitui dado está na mesma situação de quem usa mapas de papel para dirigir Uber. E quem não interpretar DRE vai sentir o chão tremer.

Legislação ambiental deixou de ser aquele detalhe chato que o advogado resolvia uma vez por ano. Agora é estratégica. Código Florestal, regularização de CAR, licenciamento ambiental — tudo isso virou pré-requisito para acessar mercados, crédito e, pasmem, até para vender. Europa não quer mais comprar de quem desmata – com nosso campo sendo o recordista de preservação mundial e secular. Estados Unidos idem. China está naquela, não faça o que eu faço, faça o que eu… mando. E o produtor? Esse está virando especialista em geoprocessamento, satélite, IA e compliance — tudo junto e misturado, com agronomia claro.

E tem mais: crédito de carbono. Ah, o crédito de carbono… Aquela promessa linda de que “agora você ganha dinheiro por plantar árvore e fazer o certo”. Na teoria, maravilhoso. Na prática? Mercado ainda patinando, metodologias complexas, certificação cara, comprador escasso. Mas atenção: quem entrar agora, quando ainda está bagunçado, vai dominar quando o mercado amadurecer. É tipo Bitcoin em 2013 — só que em vez de minerar moedas, você minera… bem, carbono mesmo.

Reforma Tributária: Finalmente Simplificou (A Confusão)

Lembra quando prometeram que a reforma tributária ia “simplificar tudo”? Pois é. Simplificou a certeza de que ninguém entendeu nada ainda. CBS, IBS, alíquotas diferenciadas para o agro, transição de 7 anos… é tanta sigla que parece reunião de agência de espionagem.

Mas vamos ao que importa para quem produz: o impacto ainda é incerto, mas uma coisa é clara — quem tiver assessoria jurídica e contábil afiada – ou uma consultoria de costas largas – vai pagar menos imposto do que quem achar que “dá para ir levando”. A complexidade virou vantagem competitiva. Triste? Sim. Realidade? Também.

E aqui no Triângulo Mineiro, onde a cadeia produtiva é integrada e forte, a reforma pode tanto favorecer a verticalização (quando você controla da porteira à gôndola) quanto complicar a vida de quem vende in natura e torce para o atravessador não sumir com a margem.

A verdade nua e crua: quem não se adaptar rápido ao novo sistema tributário vai descobrir que o fisco é mais eficiente que chuva de granizo para destruir resultado.

Ozempic: Ou Como Um Remédio Para Emagrecer Virou Problema (Ou Solução) Do Produtor de Grãos

Aqui a ironia alcança seu ápice. Quem diria que uma injeção para perder barriga mudaria a estratégia de quem planta trigo, soja e milho? Até a batata é literalmente quente nas mãos de quem produz.

Mas é exatamente isso que está acontecendo. O Ozempic e seus primos (semaglutida, tirzepatida, e toda a turma dos “glifozinas da vez”) estão mudando o padrão de consumo alimentar global. Pessoas comem menos. E quando comem, evitam carboidratos e buscam proteínas.

Traduzindo para o produtor: menos pão, menos massa, menos arroz, menos batata. Mais carne, mais ovos, mais laticínios. A indústria de alimentos já está de olho. A pecuária está esfregando as mãos. E quem planta grão para consumo humano direto? Bem… esse está tendo que repensar o cliente final.

Claro, grãos ainda alimentam animais — e se o consumo de proteína animal subir, a demanda por milho e farelo pode até crescer. Mas o modelo de negócio muda. O posicionamento muda. A narrativa de vendas muda.

Quem diria que a reinvenção do agro passaria pela endocrinologia? Até parece roteiro de filme B. Mas estamos vivendo isso. E o produtor inteligente já está ajustando portfólio, contratos futuros e até discurso de vendas para surfar nessa onda antes que vire ressaca.

(Matéria do site TheAgribiz, 28/01/2026)

A Reinvenção Não É Opcional — É Questão De Sobrevivência Empresarial

Então, resumindo o recado (porque quem chegou até aqui merece um TL;DR decente): não estamos em crise, estamos em metamorfose.

As crises dos últimos 30 anos foram eventos. Você segurava a onda, apertava o cinto, renegociava, aprendia a usar novas fórmulas químicas e voltava ao normal. Agora, o “normal” mudou de endereço, telefone e CPF. Não adianta esperar voltar ao que era.

O produtor do Triângulo Mineiro — e de todo o Brasil que leva o agronegócio a sério — precisa reinventar práticas agronômicas (agricultura regenerativa, biotecnologia, precisão), reinventar gestão (dados, indicadores, governança), reinventar compliance ambiental (deixou de ser custo, virou ativo) e reinventar relacionamento com mercado financeiro (porque banco agora quer ver ESG, não só penhor de safra).

Quem fizer isso vira protagonista da transformação. Quem resistir vira nota de rodapé na história econômica da região — aquela que começa com “antigamente tinha um produtor que…”.

A tempestade não acabou. Ela só mudou de nome. Agora se chama transformação. E ao contrário da chuva, não passa. Fica. E quem aprender a plantar na chuva, colhe na abundância.

Porque no agro, como sempre foi, quem não se adapta… vira adubo.

Adalberto Deluca é consultor de empresas

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