O envelhecimento como morada
Geni Costa | Foto: Divulgação
O envelhecimento não chega com alarde. Não bate à porta, não pede licença, não anuncia data nem hora. Ele não me atravessou como quem invade uma casa vazia. Sua chegada, não foi de repente. Não se trata de um evento súbito, mas de um processo lento, cotidiano, que vai se instalando na vida até tornar-se o espaço onde se habita. Foi se assentando aos poucos, fez morada – e, em silêncio, tornou-se meu dono.
Pensá-lo dessa forma permite afastá-lo da ideia de decadência e aproximá-lo de uma experiência marcada por constância, resistência e sentido.
Envelhecer não se resume à passagem dos anos. Trata-se de um movimento de aprofundamento interior, no qual prioridades são reorganizadas e valores são redefinidos. A relação com os limites do corpo, da energia e do tempo torna-se mais direta, exigindo maior consciência sobre o que é possível e sobre o que realmente importa. Com isso, diminuem as exigências externas e internas, assim como a pressa e a necessidade constante de validação.
O envelhecimento carrega as marcas da trajetória vivida: desafios superados, alegrias, dores, perdas e memórias que permanecem ativas. Essas experiências não são facilmente descartadas e demandam elaboração. Na contemporaneidade, o envelhecer deixou de ser visto apenas como um ponto final e passou a ocupar um lugar de disputa simbólica, especialmente em uma sociedade em que a longevidade cresce, mas o preconceito etário persiste.
Apesar de mais presentes, ativas e conectadas, as pessoas que envelhecem continuam sendo associadas a estereótipos antigos, em um contexto que valoriza a juventude como ideal quase exclusivo. Surgem, então, novas denominações para tentar redefinir essa fase da vida, mas a mudança de termos não elimina os estigmas nem as exclusões que seguem operando de forma silenciosa.
O desafio central não está no nome atribuído ao envelhecimento, mas na forma como a sociedade se organiza para acolhê-lo ou rejeitá-lo. Enquanto a idade for compreendida como perda, e não como transformação, a discriminação permanecerá. Envelhecer implica reconhecer o tempo vivido como acúmulo de experiências, memória e sentido, afirmando a continuidade da vida e o direito de pertencer em todas as suas fases.
Profa. Dra. Titular Geni de Araújo Costa Universidade Federal de Uberlândia
Ativista do Envelhecimento Ativo
Podcaster
Comunicadora Palestrante
@benditaidade

